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Novas derivas

Processo: 09/05046-3
Linha de fomento:Bolsas no Brasil - Doutorado Direto
Vigência (Início): 01 de agosto de 2009
Vigência (Término): 30 de abril de 2012
Área do conhecimento:Linguística, Letras e Artes - Artes - Fundamentos e Crítica das Artes
Pesquisador responsável:Luís Antônio Jorge
Beneficiário:Jacopo Crivelli Visconti
Instituição-sede: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo , SP, Brasil
Assunto(s):Artes visuais   Arte contemporânea   Situacionismo

Resumo

No célebre texto-manifesto "Teoria da deriva" (1958), Guy Debord descrevia a prática da deriva, que consiste em perambular, sem rumo pré-definido, escolhendo ao acaso, ou com base em sensações e impressões extemporâneas, a direção a ser tomada a cada momento. Dez anos mais tarde, a prática da deriva como ação de cunho artístico começava a firmar-se mundialmente como tipologia autônoma e reconhecida. Essas ações lembravam significativamente as derivas situacionistas, pela proximidade com o universo literário, o fascínio latente pela rápida e quase invisível obsolescência suburbana, e o desejo explícito de romper com o modelo convencional de produção artística. O formato da deriva parecia oferecer a uma geração de artistas inconformados com o modelo de produção artística vigente a possibilidade de criar obras etéreas, intangíveis e, o que mais importa, dificilmente fagocitáveis pelo sistema, já que acabavam consistindo apenas, ou basicamente, em relatos ou registros. É fascinante notar como nos mesmos anos o deslocamento firmava-se como técnica artística em contextos muito variados, incluindo países aparentemente à margem do sistema da arte, seja pela localização geográfica ou pela intransigência dos regimes políticos. Uma análise dos ciclos com que as práticas deambulatórias afloram na cena artística parece confirmar sua intrínseca relação com os movimentos e mutações sociais dos contextos dos quais emergem. As derivas, de fato, praticamente desapareceram ao longo dos anos 1980, uma década marcada pelo individualismo e a ambição, e em campo artístico pela retomada do trabalho de ateliê, com a celebrada "volta à pintura". A partir de meados dos anos 1990, porém, as preocupações sociais e políticas que marcaram a produção dos anos 1970 parecem voltar a ocupar um lugar central nas tendências artísticas. É reflexo disso o número cada vez maior de coletivos de artistas, cuja atuação situa-se no limiar entre criação artística e ação social. Como boa parte da produção contemporânea mais instigante, é evidente que as novas derivas funcionam dentro de um universo que pode ser definido, citando um livro do crítico francês Nicolas Bourriaud, "relacional": criando novas relações, mesmo no âmbito peculiar do museu ou da galeria, essas obras contribuem para o nascimento e fortalecimento de uma nova sociedade, criando instrumentos para novas possibilidades de convivência. Paralelamente, a persistência de derivas individuais, e em muitos casos extra-urbanas, como as de Andy Goldsworthy, Hamish Fulton ou do brasileiro Ducha, para citar apenas alguns, confirma que a leitura "relacional" não é suficiente para dar conta de um fenômeno extremamente rico e diversificado. Mesmo não constituindo um movimento, a recorrência de um modus operandi análogo em vários lugares do mundo, isto é, em contextos bastante distintos do ponto de vista cultural, social e político, deve ser lida como sintoma de uma necessidade íntima da sociedade, da qual os artistas são frequentemente os porta-vozes. De particular interesse é observar a coerência das ações em âmbito latino-americano, e brasileiro em particular, principalmente no que diz respeito à análise de seus significados simbólicos e de seu potencial de criação de um imaginário coletivo: do potencial da deriva artística, enfim, de funcionar como ferramenta para uma posse de território, seja este urbano ou extra-urbano, que deve ser considerada ainda em andamento. Com a finalidade de evidenciar como a estratégia da deriva tornou-se um mecanismo privilegiado para questionar e investigar, a partir do âmbito da produção artística, determinados aspectos da sociedade contemporânea, foram concebidas cinco tipologias de derivas, que funcionam como sismógrafos de tendências mais ou menos latentes na sociedade com a qual, seja harmoniosa ou conflituosamente, se relacionam, provisoriamente intituladas: psicogeografia; mapas e cartografias; derivas alheias; à procura do vazio; construindo uma nova sociedade. (AU)

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