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Helena Ignez, atriz experimental

Resumo

O livro Helena Ignez, atriz experimental pretende ser uma análise estética da atuação da atriz brasileira ligada majoritariamente ao cinema marginal, mas que extrapola sua atuação e influência para outros momentos da historiografia do cinema brasileiro e outras frentes da atuação artística e intelectual (direção de curtas e longas metragens, atuação no teatro, movimento de defesa das mulheres). O objetivo é estudar o trabalho do ator como componente da forma fílmica e tecer análises gestuais, de construção de visualidades e de personagens, de relações entre ator e realizador e de inserção do ator dentro do processo criativo e receptivo do filme. O trabalho inscreve-se na linhagem dos estudos atorais (acting studies), que pretende desenvolver um ângulo estilístico sobre atores de cinema e entender a performance como acting, estudando a estética do gesto e o resultado do processo criativo de atuação. A perspectiva é histórico-estética e visa pensar o trabalho do ator como elemento passível de ser quantificado e qualificado, assim como outros elementos da mise en scène, numa abordagem transdisciplinar envolvendo as ciências humanas e a teoria e a história do teatro e das artes visuais. Seu objeto são as atuações de Helena Ignez em filmes brasileiros, majoritariamente ligados ao cinema marginal (anos 1970), à produtora Belair e à obra de diretores como Rogerio Sganzerla e Júlio Bressane. Pretende-se destacar atuações pautadas por um sentido de descompromisso com a verossimilhança dos gestos, das posturas e da construção psicológica, por uma busca da provocação e do deboche e uma tentativa de reinvenção do jogo atoral pautado pela necessidade de identificação total entre ator e personagem. Esse jogo mostra-se como simulação reflexiva e autoconsciente e que, por isso, passa a impressão de estarmos vendo não a efetivação de cenas, mas o ensaio delas, tamanho o frescor das improvisações. Prova da modernidade do jogo atoral da Belair que replicava, com as características particulares do movimento brasileiro, questionamentos gerais vindos da obra de autores como Bergman, Godard e Cassavetes e sua relação com seus intérpretes. Para esses diretores e atores, "aparecer num filme" significava "preparar o terreno para se estar no filme", comentar sua atuação mais do que encarnar um personagem, não fingir simplesmente ser outra pessoa, mas mostrar ao espectador os meandros dessa preparação ou dissimulação. Será analisada também a contribuição de Helena Ignez como realizadora e em outras fases do cinema brasileiro (cinema novo, cinema da retomada, cinema contemporâneo). A edição do livro em francês foi encomendada pela coleção Estudos Atorais, dirigida por Christophe Damour e editada pelo laboratório de pesquisa Abordagens Contemporâneas da Criação e da Reflexão Artística (ACCRA), ligado à Faculdade de Artes da Universidade de Estrasburgo (França). Será uma oportunidade única para que o mundo acadêmico francês e europeu conheça um trabalho atoral revolucionário e inventivo, a grande contribuição do cinema brasileiro para a dicotomia que domina as práticas e os estudos da atuação no cinema (Stanislavski X Brecht). Os outros livros já editados pelo ACCRA focam a atenção em renomados atores vindos de escolas do cinema dominante (Leonardo di Caprio e Montgomery Clift, ligados ao cinema industrial americano e à tradição do Actors Studio). A grande maioria de análise atorais realizadas por acadêmicos franceses e americanos, aliás, foca atenção em atores vindo de uma dessas duas grandes tradições de atuação para o cinema: a europeia e a norte-americana. Inserir Helena Ignez nesse panorama mostra-se essencial para deslocar o eixo da análise para cinemas de países que são considerados periféricos dentro dos modelos epistemológicos e analíticos da teoria eurocentrista das artes. (AU)

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